O Cortiço - Aluísio de Azevedo

Aluísio de Azevedo (1857 - 1913)

(Por Rafael Myszak)

Aluísio Azevedo nasceu no dia 14 de abril de 1857 na cidade de São Luís do Maranhão. Segue para o Rio de Janeiro após seus primeiros anos, a fim de morar junto com seu irmão. Com a morte do pai volta à sua cidade natal onde começa sua carreira literária. Escreve em 1880 o livro Uma lágrima de mulher, seguido por O Mulato no ano seguinte. Trabalha em jornais até o ano de 1896 quando inicia uma carreira diplomática, passando por Vigo, Nápoles, Japão e Buenos Aires, onde morre em 21 de Janeiro de 1913. Dentre suas obras destacam-se: A Condessa Vésper (1882), Filomena Borges (1884), Casa de Pensão (1884), O Homem (1887), O Cortiço (1890), além de peças de teatro, em colaboração com Artur Azevedo e Emílio Rouè.

Alguns de seus livros enquadram-se no romantismo, como é o caso de A condessa Vésper, Filomena Borges e O Esqueleto, porém, é no movimento naturalista, o qual o próprio Aluísio inaugurou no Brasil com sua obra O Mulato, que encontram-se suas obras de maior impacto. Advindo das ideias deterministas e evolucionistas, o naturalismo pode ser considerado um realismo extremo, onde imperam o instinto fisiológico, muitas vezes de natureza animal, nos personagens da trama. Outras características das obras naturalistas são os diálogos coloquiais usados para retratar o homem como realmente é e o pessimismo que adquirem as obras devido ao seu modo de retratar a sociedade.

Na época da publicação de O cortiço a maior parte da produção literária brasileira era romântica, escrita para a burguesia. Com as obras realistas e naturalistas o enfoque se dá em todas as classes sociais da época. Em O Cortiço a sociedade tida como perfeita é mostrada de um modo decadente, com todos os seus problemas sociais, muitas vezes deixados de lado pelo romantismo. No livro a classe mais pobre é mostrada como animais buscando apenas a sua sobrevivência enquanto outros, de classe mais alta, se utilizam de todos os meios para enriquecer. As ações das personagens são guiadas pelo meio onde as mesmas vivem, e o cortiço acaba se tornado um próprio personagem da obra, capaz de guiar os caminhos da mesma.

O cortiço:

O próprio cortiço se personifica na obra. Como um organismo vivo, o cortiço se desenvolve e interfere nas condições daqueles que o habitam, determinando suas ações e influenciando suas decisões. O cortiço está lado a lado com João Romão e também acaba influenciando o mesmo.



João Romão e Miranda: Dono do cortiço e do sobrado respectivamente. Representam a classe burguesa dentro da obra. Ambos comerciantes portugueses, são guiados pela ganancia, buscando acima de tudo a acensão social, independente dos métodos que tenham que utilizar. Os dois, de tão iguais se odeiam, e isso apenas muda devido ao interesse mutuo pela ascensão social, com o casamento de João Romão com Zulmirinha, filha de Miranda.



Bertoleza: Negra e escrava, Bertoleza mostra-se ingênua e fiel a João Romão. Trabalha desde cedo para conseguir sua liberdade e quando acha que já não precisa continua trabalhando para ajudar no enriquecimento de João Romão. Em momento algum se preocupa com as privações que sofre, comendo os restos e dormindo pelo chão, em qualquer canto.

Dona Estela: Branca, mulher de Miranda, de ares nobres, representa, ao contrário de Bertoleza, a mulher nada ingênua. Adultera, é motivo de preocupação por parte de Miranda.

Zulmirinha: Filha de Miranda, acaba por se tornar mulher de João Romão, após este trair Bertoleza a entregando como escrava fugida. O casamento dos dois mostra o puro interesse pela ascensão social.

Rita Baiana: Representa a mulher brasileira, cheia de sensualidade. Mostra durante a obra ter um grande poder de conquista. É a responsável pelos pagodes que acontecem no cortiço.

Jerônimo e Piedade: Marido e mulher, ele trabalha na pedreira de João Romão, mais um dos que acabam sendo explorados para o enriquecimento do dono do cortiço. Acaba tendo forte atração física por Rita Baiana, e desestruturando sua união com Piedade. O envolvimento de Jerônimo com Rita Baiana adquiri um ar animalesco. O sexo em toda a obra é visto com algo compulsivo, animalesco, vindo dos instintos mais profundos do homem. Piedade, mulher portuguesa, acaba sucumbindo ao que a rodeia e termina em uma pobreza e tristeza que a levam a quase loucura.



Pombinha e Leónie: Pombinha é a filha de D. Isabel, com 18 anos é representada no inicio como sendo pura, com sonhos de casamento. Porém, mais uma vez é mostrada a força do meio em relação aos personagens e ao conhecer a prostituta Leónie acaba mudando totalmente e passa a ter uma relação homossexual com a mesma.

Escrita com grandes cuidados gramaticais, a obra ainda assim consegue representar a linguagem falada na época de sua publicação. Se utilizando de descrições fotográficas dos momentos narrados o autor consegue narrar os grupos sociais com a mesma objetividade e riqueza de personagens únicos. Ainda são usados neologismos e expressões populares, o que caracteriza ainda mais as classes sociais dos personagens.



Narrado em 3ª pessoa, O Cortiço possui um narrador onisciente que se mantém distante do universo narrado. O narrador mostra uma visão fatalista dos acontecimentos e mais uma vez fica evidente a força do meio e a falta de livre arbítrio dos personagens.

Podemos colocar como questões centrais da obra o romance social, onde a burguesia, aristocracia e as classes mais pobres são mostradas em suas diferenças. Ainda temos o determinismo e todas as ideias científicas que influenciaram o realismo. Criticas ao capitalismo são feitas e à sempre crescente sede de riqueza e acensão social. As classes mais altas são mostradas como tendo sua podridão da mesma forma que as classes pobres.

Outro aspecto é a animalização dos personagens, principalmente os de classes mais baixas, onde os instintos básicos de sobrevivência e os instintos fisiológicos falam mais alto, lembrando aqui o papel do sexo na obra.

Finalmente não se pode esquecer que tudo na obra está sujeito ao meio e a forças incontroláveis, mesmo os personagens como João Romão e Miranda, são transformados e seus atos definidos pelo meio.

A obra se passa em tempo cronológico, seguindo a ascensão de João Romão. Os espaços são narrados com grande nível de detalhes, mostrando toda a pobreza, podridão e promiscuidade em que viviam os personagens. Até mesmo os cheiros e barulhos são descritos nos seus detalhes, o que permite que se crie uma densa neblina que envolve o leitor o conduzindo aos cenários com grande nível de realidade. Destacam-se nos cenários, o cortiço, que ainda sofre uma personificação pelo seu poder de se tornar um organismo vivo dentro da obra, a venda e a casa do Miranda, que luta lado a lado com o cortiço pelo seu espaço. Além disso é importante ainda lembrar da pedreira, local de trabalho de grande parte dos moradores do cortiço.

5 Response to "O Cortiço - Aluísio de Azevedo"

  1. Anônimo Says:
    5 de dezembro de 2010 13:05

    o que fala de amor nos 3 três últimos capítulos.

  2. Anônimo Says:
    14 de janeiro de 2012 05:27

    Parabéns pelo site!
    Ajuda muito a entender melhor as obras para o vestibular!
    Obrigada :D

  3. Anônimo Says:
    13 de agosto de 2012 18:11

    gostii .. esse site é otimo pra qem ta fazendo trabalho de ultima hora kkk ; explica mto beem ..

  4. Anônimo Says:
    22 de fevereiro de 2013 13:37

    muito legal

  5. Anônimo Says:
    30 de junho de 2013 11:29

    Nos romances naturalistas o comportamento humano é comparado ao do animal.Cite um trecho do livro que confirma essa afirmativa.

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